Entrevista estruturada: 5 prompts para contratar com critério, não pelo feeling
A conversa em que você "sente" o candidato é um dos piores jeitos de prever quem vai entregar. A pesquisa sobre seleção mostra o que funciona melhor: critério escrito antes, as mesmas perguntas para todos e decisão pela conta. A IA não escolhe ninguém. Ela obriga você a escrever o critério antes de conhecer o candidato.

Por que importa: Cada contratação errada custa meses de salário, treinamento e cliente mal atendido. Escrever o critério antes, perguntar o mesmo para todos e decidir pela conta é o que separa uma seleção que se repete de uma aposta que muda a cada vaga.
Por que a entrevista pelo feeling erra
Quase toda contratação em empresa pequena e em unidade de franquia segue o mesmo roteiro: uma conversa sem pauta, a impressão de que "a pessoa é boa" e a decisão no mesmo dia. Parece experiência. Os dados dizem que é sorte.
A maior revisão recente sobre métodos de seleção, publicada por Sackett, Zhang, Berry e Lievens no Journal of Applied Psychology em 2022, mediu quanto cada método prevê o desempenho depois da contratação. A entrevista livre, aquela em que você sente o candidato, fica em 0,19. A entrevista estruturada, com as mesmas perguntas e a mesma régua de nota para todos, chega a 0,42.
A entrevista livre prevê desempenho com validade de 0,19. A estruturada, 0,42.
Validade, aqui, é o quanto a nota dada na seleção acompanha o desempenho real da pessoa no trabalho. Quanto maior, menos a contratação depende de sorte. A diferença entre os dois números não vem de um entrevistador mais talentoso. Vem do método: critério definido antes, pergunta igual para todos, nota registrada.
É aqui que a IA entra, e só aqui. Ela não deve escolher quem contratar. Ela serve para obrigar você a escrever o critério antes de conhecer o candidato, que é a parte que ninguém faz quando a vaga está aberta e a loja está sem gente. Os cinco prompts abaixo cobrem o processo inteiro, do scorecard à decisão.
Prompt 1: o scorecard vem antes da vaga
O scorecard é a ferramenta central do método Who, de Geoff Smart e Randy Street (2008). Em vez de uma lista de requisitos genérica, ele define por que a vaga existe, o que a pessoa precisa entregar e quais comportamentos levam a essas entregas. Tudo escrito antes do primeiro currículo.
Prompt para colar: Use o Scorecard do método Who, de Geoff Smart e Randy Street. Vaga: [VAGA]. Monte a missão em uma frase, de 3 a 5 resultados mensuráveis para 90, 180 e 365 dias e as competências que levam a eles, com nota de 1 a 5 e o mínimo aceitável. Pergunte o que faltar e discorde de meta vaga. Nunca use idade, estado civil, origem ou família como critério.
| Campo | O que escrever |
|---|---|
| Missão | Por que a vaga existe, em uma frase |
| Resultados em 90 dias | O que precisa estar entregue, com número |
| Resultados em 365 dias | O resultado que paga a contratação |
| Competências | 3 a 5 comportamentos que levam aos resultados |
| Régua e corte | O que vale 1, 3 e 5 em cada competência, e o mínimo |
A instrução "discorde de meta vaga" é o que faz o prompt funcionar. "Ser proativo" não é resultado. "Responder todos os leads do WhatsApp em até 10 minutos" é. Se a IA aceitar meta vaga sem reclamar, o scorecard nasce inútil.
Prompt 2: a mesma pergunta para todo mundo
Com o scorecard pronto, a entrevista deixa de ser conversa e vira medição. Cada pergunta existe para avaliar uma competência do scorecard, e todos os candidatos respondem as mesmas perguntas, na mesma ordem. É isso que permite comparar um com o outro, em vez de comparar cada um com a sua lembrança.
Prompt para colar: Com o scorecard abaixo, crie uma entrevista estruturada de [45] minutos: 6 a 8 perguntas sobre situações reais do passado ("me conte uma vez em que..."), iguais para todos os candidatos, com as perguntas de aprofundamento e o que vale nota 1, 3 e 5 em cada uma. Discorde de competência vaga. [SCORECARD]
Dois detalhes fazem diferença. As perguntas são sobre o passado real, não sobre hipóteses: "o que você faria" mede discurso, "me conte uma vez em que" mede histórico. E a régua de 1, 3 e 5 é escrita antes da entrevista, para que a nota não dependa do humor de quem entrevista.
Prompt 3: um teste que parece o trabalho
Na mesma revisão de 2022, o teste prático que reproduz o trabalho real, o chamado work sample, aparece com validade de 0,33, bem acima da entrevista livre. Faz sentido: em vez de perguntar se a pessoa sabe fazer, você vê a pessoa fazendo.
Prompt para colar: Crie um teste prático para [VAGA] a partir desta tarefa real: [TAREFA]. Duração de 45 a 90 minutos, mesmo briefing e recursos para todos os finalistas, entregável claro e correção de 1 a 5 com nota de corte. Sem dados reais de clientes. Discorde se o teste virar trabalho produtivo de graça.
Para um vendedor, a tarefa pode ser responder três mensagens de lead. Para um gerente de unidade, organizar a escala de uma semana. O teste é para os finalistas, não para todos os inscritos, e tem o mesmo briefing para cada um.
Prompt 4: referência com roteiro fixo
Ligar para o ex-chefe e perguntar "ele era bom?" não mede nada. O método Who trata a referência como mais uma entrevista estruturada: roteiro fixo, perguntas ligadas ao scorecard e pedido de exemplo concreto.
Prompt para colar: Monte um roteiro de 15 minutos para conversar com dois ex-gestores do finalista, com autorização dele. Pergunte sobre [2 RESULTADOS] e [2 COMPETÊNCIAS] do scorecard, com nota de 1 a 5 e pedido de exemplo concreto. Depois cruze as respostas com a entrevista e aponte contradições. Não conclua nada com uma fonte só.
A referência tem validade de 0,26, segundo a revisão clássica de Schmidt e Hunter no Psychological Bulletin (1998). Serve para confirmar o que a entrevista e o teste mostraram, não para vetar alguém sozinha. Uma referência negativa isolada é sinal para investigar, não sentença.
Prompt 5: a decisão sai da conta
Depois de scorecard, entrevista, teste e referência, a maioria das empresas joga tudo fora e decide pela impressão geral. É o erro mais caro do processo. A meta-análise de Kuncel e colegas, no Journal of Applied Psychology (2013), mostrou que combinar as notas por fórmula previu desempenho mais de 50% melhor do que decidir pela impressão geral.
Prompt para colar: Estas são as notas de cada avaliador por critério, com os pesos (somando 100%) e as notas de corte definidos antes das entrevistas: [NOTAS]. Calcule a nota ponderada de cada candidato, aponte onde os avaliadores divergem mais de 2 pontos e quem não atinge o mínimo em algum critério. Não mude pesos depois das entrevistas. A decisão final é minha.
A regra que segura o método é não mudar os pesos depois das entrevistas. Se o candidato que você "gostou" ficou em segundo e você ajusta o peso para ele subir, voltou ao feeling com uma planilha de enfeite. Onde dois avaliadores divergem mais de 2 pontos, a conversa é sobre a evidência, não sobre quem tem mais cargo.
O processo inteiro em uma tela
| Etapa | O que muda | O que a pesquisa diz |
|---|---|---|
| Scorecard | Critério escrito antes da vaga | Base do método Who (Smart e Street, 2008) |
| Entrevista estruturada | Mesmas perguntas e régua para todos | Validade de 0,42, contra 0,19 da livre (Sackett et al., 2022) |
| Teste prático | Ver a pessoa fazendo o trabalho | Validade de 0,33 (Sackett et al., 2022) |
| Referência | Roteiro fixo, para confirmar | Validade de 0,26 (Schmidt e Hunter, 1998) |
| Decisão | Nota ponderada com pesos fixos | Mais de 50% melhor que a impressão geral (Kuncel et al., 2013) |
Nenhuma etapa exige software de RH. Exige escrever antes e não mudar depois. Comece pela próxima vaga que abrir: preencha o scorecard com o prompt 1 e só publique o anúncio quando a missão e os resultados de 90 dias estiverem escritos.
O que costumam perguntar
O que é entrevista estruturada?
É a entrevista em que todos os candidatos respondem as mesmas perguntas, ligadas a competências definidas antes, com uma régua de nota escrita antecipadamente. Na revisão de Sackett e colegas (2022), ela prevê desempenho com validade de 0,42, contra 0,19 da entrevista livre.
O que é o scorecard do método Who?
É o documento que define a vaga antes da seleção: a missão em uma frase, os resultados mensuráveis esperados em prazos como 90 e 365 dias e as competências que levam a eles, com nota mínima. O método é de Geoff Smart e Randy Street, no livro Who (2008).
Posso deixar a IA escolher o candidato?
Não. A IA serve para escrever o critério, montar as perguntas e calcular a nota ponderada. A decisão final é de uma pessoa. O art. 20 da LGPD garante o direito de pedir revisão de decisão tomada só por tratamento automatizado, e a Lei 9.029/1995 proíbe critério discriminatório na contratação.
Teste prático vale a pena para vaga operacional?
Sim, desde que reproduza uma tarefa real da vaga, dure de 45 a 90 minutos e tenha o mesmo briefing para todos os finalistas. Na revisão de 2022, o teste prático aparece com validade de 0,33. Não use dado real de cliente nem coloque a entrega em produção sem pagar.
Checar referência ainda funciona?
Funciona para confirmar, não para decidir sozinha. A validade da referência é de 0,26 segundo Schmidt e Hunter (1998). Use um roteiro fixo com perguntas do scorecard, peça autorização ao candidato e cruze com o que a entrevista e o teste mostraram.
- Sackett, Zhang, Berry e Lievens (2022), revisão das estimativas de validade dos métodos de seleção, Journal of Applied Psychology
- Schmidt e Hunter (1998), validade e utilidade dos métodos de seleção, Psychological Bulletin
- Kuncel et al. (2013), combinação mecânica versus clínica de dados na seleção, Journal of Applied Psychology
- Geoff Smart e Randy Street, Who (2008), método de contratação por scorecard
- Lei nº 9.029/1995, proibição de práticas discriminatórias na relação de trabalho
- Lei nº 13.709/2018 (LGPD), art. 20, revisão de decisões automatizadas
Este artigo é boa prática de gestão, não parecer jurídico. Os números de validade são médias de pesquisas acadêmicas e não garantem o resultado de uma contratação específica. Para dúvida sobre legislação trabalhista ou LGPD, fale com o seu advogado.